Ivan Lins fala à ONU News sobre participação no Dia Internacional do Jazz

Único representante da língua portuguesa no evento, organizado pela Unesco, cantor e compositor brasileiro lembra mais de quatro décadas de carreira e diz que mercado musical depende agora da internet para se promover; Lins também disse acreditar que o investimento na música e na educação pode ajudar a mudar o mundo.

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ivan lins

Monica Grayley, da ONU News em Nova Iorque.

Em algumas semanas, o cantor e compositor brasileiro Ivan Lins deve celebrar 72 anos de idade. Mais da metade deste percurso é dedicada à melodia. O engenheiro químico que descobriu sua verdadeira vocação nas combinações de acordes, que resultariam na formação da MPB, garante que a música tem um poder transformador: “A música faz milagres. A música cura, salva, une, ela inclui socialmente, a música faz coisas fascinantes. E se ela fosse, dentro de uma política cultural séria, acompanhada de educação que é a base da sobrevivência humana, e a música como prioridade absoluta, o mundo não estaria desse jeito.”

Neste domingo, 30 de abril, Ivan Lins estará novamente em Havana para levar sua música à celebração do Dia Internacional do Jazz. O evento, organizado pela Unesco e parceiros, conta ainda com outros nomes internacionais como Quincy Jones e Herbie Hancock, que é embaixador da Boa Vontade da agência.

Nesta conversa com a ONU News, Ivan Lins falou um pouco da razão do seu sucesso de quase cinco décadas, analisou o mercado musical atual e disse que é um costureiro da melodia. “É como se eu fosse o Giorgio Armani da hamornia”, comparando sua música a uma modelo que deve ser bem vestida.

Leia e ouça a entrevista na íntegra.

ONU News: Tudo bem, Ivan? Obrigada por falar conosco. Você se apresenta amanhã? (Domingo, 30 de abril).

Ivan Lins: Eu toco amanhã com a banda internacional aqui, quer dizer uma banda chique.

ON: Uma banda chique e um cantor chique (risos)

IL: (Risos)

ON: O que você vai cantar?

IL: Eu vou cantar Lua Soberana… E no final, eu canto com todo mundo aquela do John Lennon, puxa eu estou com ela na memória…

ON: Imagine?

IL: Imagine

ON: E é a sua primeira vez em Cuba?

IL: Não, não, deve ser a vigésima vez ou coisa assim.

ON: Os cubanos já te conhecem bem…

IL: Muito bem. Muito bem. E conhecem essa música porque essa música é de uma novela brasileira que passou aqui. As novelas brasileiras passam aqui. E as músicas de novela são todas conhecidas aqui.

ON: Você está nessa carreira há muito tempo. Madalena com Elis foi em 1970?

IL: Isso.

ON: E você, ao contrário de outros colegas, tem conseguido fazer sucesso, estar sempre em evidência, você faz músicas maravilhosas, emplaca músicas nas novelas. Qual é o segredo desse sucesso?

IL: Olha, é difícil dar uma explicação certeira. Eu posso fazer suposições, mas… Primeiro, pelo fato de que sou fã de todos os meus colegas. Não me imagino melhor que eles, nem nada. Todos eles têm uma particularidade bonita. Eu me inspiro muito neles inclusive para fazer a minha música. Evidentemente que eu filtro a influência deles para uma linguagem musical de uma forma como eu coloco. Que é assim, talvez uma sequência harmônica, muita gente fala sobre as minhas harmonias. Mas o que prevalece, o que pouca gente não acredita, ou não percebe é que a minha prioridade é a melodia. Eu sou um melodista. Tem assim por exemplo um Dori Caymmi. Inclusive aqui e nos Estados Unidos falam muito na minha melodia. Que sou um melodista. E sou mesmo. As minhas primeiras influências que tive, e na verdade, eu ainda não era um compositor nem nada, foram exatamente os grandes melodistas que eram a música standard americana dos anos 40 e dos anos 50 que eu ouvia muito quando era jovem, antes de começar a aprender piano. Ao mesmo tempo que eu escutava jazz, eu adorava jazz, mas eu gostava muito, por exemplo, do Frank Sinatra, do Nat King Cole, das músicas de cinema, que eu ia muito, eu era um fanático por filmes, por musicais especialmente, assistia a todos os musicais inclusive os brasileiros e os americanos, eu era fanático. E então foi assim. E depois com o Dorival Caymmi, os Beatles, que eu posso citar assim como duas entidades existencialmente assim de grandes melodias. O truque é a melodia simples, bem vestida. Talvez esta seja a melhor definição. A minha música é uma múscia que eu primo pela melodia, mas eu visto ela muito bem. Com os acordes que falam. Muita gente fala que meu forte é hamornia, o que atraiu o público internacional, quer dizer eu sempre gostei de hamornia, né? Mas se você for pegar meus grandes sucessos brasileiros, todos, basicamente 99% têm uma harmonia sofisticada e o povo canta porque é a melodia.

ON: A letra é muito bonita também….

IL: As letras são muito boas, graças a Deus. Eu tenho andado em muito boa companhia principalmente com o Vitor Martins que é o meu mais importante letrista. Ele também escreve… Mas o mercado internacional, como eles não entendem as letras, o que primam, o que falam é que eu sou um grande melodista, e que sei vestir muito bem minhas melodias. É como você pegasse uma modelo e eu sou o costureiro, um Giorgio Armani da hamornia…. (Risos)

ON: Ivan, e até que ponto a engenharia, sua formação acadêmica, ajuda neste trabalho?

IL: Nada. (Risos) Absolutamente nada. Eu fico aqui me perguntando…quer dizer, eu sei por que eu fui fazer engenharia química, né? Eu gostava da matéria e meus melhores amigos, quando a gente foi para a Universidade, eles foram para a química, e eu segui assim, eu já gostava de química, não era a matéria que eu talvez mais gostasse, mas eu era bom aluno de química. Eu poderia ter feito arquitetura. O exame psicotécnico deu arquitetatura na frente de química. E eu era muito bom em trigonometria, geometria, desenho, desenhava bem..

ON: E a música ganhou um senhor engenheiro…

IL: (Risos).. É… Graças a Deus!

ON: Quantas composições até hoje? Desculpa, eu deveria sabê-lo….

IL: Bom, títulos gravados… já chegam perto de… já passaram de 500 títulos gravados.

ON: E como é pra você, e eu sei que Herbie Hancock e Quincy Jones devem estar pensando o mesmo de você, mas como é cantar no mesmo palco que eles?

IL: Olha, pois é, muitos deles são meus amigos de longa data, né? Tanto o Quincy que foi o primeiro grande nome assim que eu conheci pessoalmente. O primeiro grande nome, na verdade foi Ella Fitzgerald, quando ela gravou Madalena, mas assim foi uma coisa esporádica, né, foi em 1972. Mas dentro da parte, momento, quando minha música começou a entrar no mercado internacional, foi através do Quincy, que foi exatamente o primeiro que eu conheci, e na época que ela era o Midas da indústria americana. Acho que ele continua sendo, é um nome assim que é respeitado até o resto da vida por tudo que ele fez pela música americana, pelo jazz, pela música pop de qualidade, Michael Jackson, George Benson, muitos outros. E vários deles vão estar aqui. Eu me sinto bem à vontade com ele. E eu já toquei com vários deles, ocasionalmente, através desses anos, em 1980, e tal. E como são músicos de excelência é sempre muito bom tocar com eles, muito bom mesmo.

ON: Ivan, qual a análise que você faz da música brasileira hoje. Tem gente que fala que o melhor da música já foi feito como a bossa nova, a Música Popular Brasileira. Qual análise você faz hoje?

IL: Como eu vejo o Brasil?

ON: É.

IL: Continua assim, quer dizer, tem uma juventude produzindo muito bem. Tem aparecido coisas muito bonitas. Mas a grande dificuldade de você chegar a esta qualidade é que a mídia aberta não toca mais esse tipo de coisa, tanto televisão quanto rádio etc. Então o grande veículo hoje é a internet. A internet se alguém não falar pra você ir atrás, você não vai saber. Então tem muita gente que eu descubro assim quando alguém diz, esse é outro fulano, outro sicrano, aí eu vou ouvir, e aparecem coisas assim interessantes bonitas, normalmente através destas cantoras novas que estão gravando. É uma outra geração que está aparecendo dentro de uma outra realidade da indústria, sem CDs pra vender, com direito autoral realmente prejudicado pela internet, que não paga nada, paga muito mal. Então eles têm um comportamento diferente, eles não estão infelizes. Quem está infeliz somos nós que pegamos uma fase muito mais favorável, a minha geração, nós estamos muito mais chateados com isso, nos sentimos mais prejudicados e tudo. Mas essa garotada, não. Essa garotada já nasceu com essa situação. Então eles se acostumaram e se viram muito bem. Eles se viram lá, montam suas tribos na internet. Tem aquele pessoal que segue eles. De vez em quando eu vejo um nome que eu nunca ouvi falar botando 5 mil pessoas no Circo Voador ou no outro teatro, três mil ou duas mil pessoas. É tudo seguidor de internet.

ON: A forma de promover hoje é diferente, né?

IL: É. E ela é toda setorizada. É toda espalhada. São tribos que se distribuem, e você para descobrir, você tem que ficar fuçando, ligando para as pessoas para saber, se não você não conhece…

ON: E o conselho que você daria então para quem quer entrar no mercado agora com esta nova realidade de promoção e também musical?

IL: Eu acho que é só tentar acompanhar o que a geração deles está fazendo. Tenta fazer. Eu acho que a música… A minha fórmula é essa: é uma melodia mais acessível com muito boa letra e saber vestir bem, adequadamente. Esse seria o truque. E entrar na internet e fazer o que os outros estão fazendo. É o único caminho.

ON: A diretora-geral da Unesco disse hoje que o jazz une as pessoas, as culturas, ele quebra preconceitos, ele ajuda você a melhorar como pessoa e a melhorar de vida. Você concorda?

IL: Eu concordo totalmente. A música… isso que acho que as pessoas, por exemplo, os governantes e os políticos não se tocam com uma realidade com o poder que a música tem. A música faz milagres. A música cura, salva, une, ela inclui socialmente, a música faz coisas fascinantes. E se ela fosse, dentro de uma política cultural séria, acompanhada de educação que é a base da sobrevivência humana, educação associada à cultura e a música como prioridade absoluta, talvez uma boa prioridade, o mundo não estaria desse jeito. Agora, como é que você vai lidar com a mentalidade dos politicos? Eles acham que cultura, essas coisas todas, é supérfluo. E com esse nível de educação, principalmente aqui no Hemisfério Sul, excluindo Nova Zelândia, Austrália, a educação é tratada como uma coisa qualquer. Falam muito antes das eleições que vão fazer como forma de governo, de administração, de gestão, mas não fazem, não cumprem o que falam. No Brasil, a educação está ladeira abaixo, apesar de há quatro décadas, prometerem que vão investir na educação.

ON: Precisamos então de mais música?

IL: Sim, de mais investimento na música. Por exemplo a Unesco, estando por trás, os órgãos desta mesma categoria, se investirem na música internacional, na união dos povos, eu acho que a música pode exercer um papel fundamental. Eu digo sempre o seguinte. Tem três coisas que se tirarem do planeta, o planeta acaba, que são água, ar e música.